Quando dois ícones do cinema se
encontram, a Magia pode acontecer. Não estamos falando de “all-star movies”,
mas do simples encontro de dois artistas celebrados. Como quando a ganhadora de
três Oscars Ingrid Bergman (então com apenas dois prêmios) encontrou o ganhador
de dois Oscars Anthony Quinn, ambos se aproximando do fim de suas carreiras -
mas ainda tão bons como sempre foram. O filme em questão é “Caminhando Sob a
Chuva de Primavera” (1970)
When two cinema icons meet, Magic
can happen. We’re not talking about the “all-star movie”, but the simple
encounter of two celebrated performers. Like when three-time Oscar winner
Ingrid Bergman (then with only two awards under her belt) met the two-time
Oscar winner Anthony Quinn, both nearing the end of their careers - but still
as good as ever. The film was “A Walk in the Spring Rain” (1970).
O professor universitário Roger
Meredith (Fritz Weaver) e sua esposa Libby (Ingrid Bergman) são aparentemente
um casal feliz e têm uma filha que quer voltar a estudar para se tornar
advogada, algo que seu pai desaprova. Aqui estamos: já com asco deste
personagem. O casal decide tirar um ano sabático nas montanhas, por isso alugam
uma cabana administrada por Will Cade (Anthony Quinn). O novo trio bebe e canta
junto, Will consegue para o casal dois cabritinhos e tudo parece correr bem.
Até que vem o choque.
College professor Roger Meredith
(Fritz Weaver) and his wife Libby (Ingrid Bergman) are apparently happily
married and have a daughter who wants to go back to school to become a lawyer,
something her father disapproves of. Here we are: already disliking this
character. The couple decides to spend a sabbatical in the mountains, so they
rent a cabin managed by Will Cade (Anthony Quinn). The newly-formed trio drinks
and sings songs together, Will gets them a couple of baby goats and everything
seems to be alright. Until it isn’t.
Do jeito mais natural possível,
numa conversa casual, Will diz a Libby que a ama. Ele não se importa se for um
sentimento unilateral - tudo bem se o amor não for correspondido. O problema é
que ela também sente algo mais por ele - mesmo eles podendo ser “amantes
inadequados”. O problema maior é que o filho encrenqueiro dele vê os dois
juntos.
In the most natural way, in a
casual conversation, Will tells Libby that he loves her. He doesn’t care if it
is a one-way infatuation - he’s fine even if she doesn’t love him back. The
issue is that she also has feelings for him - even though they might be
“unsuitable lovers”. The bigger issue is that his troublemaker son sees them
together.
O arco narrativo de um filho não
concordar com o relacionamento de seu pai ou mãe com outra pessoa é comum e
pode ser encontrado em muitos livros, filmes e novelas. O personagem que aqui
desaprova o romance alheio, o filho de Will, nos é apresentado rolando na neve
durante uma briga causada por ciúmes. É outro personagem de quem não gostamos
de cara.
The plot element of having
someone’s child disapproving of the relationship between his/her father or
mother with someone else is common and can be found in several books, movies
and soap operas. The character here who is bitter with others’ romance, Will’s
son, is first shown rolling in the snow in a fistfight over a woman. It’s
another character who we dislike from the start.
Eu ri alto quando Libby contou
para Will que seu marido está escrevendo um livro e o homem perguntou “para
quê? Você já tem livros suficientes”. Estou fazendo um curso de escrita
criativa e sei por experiência que nós escritores somos nossos primeiros
leitores e mais severos críticos. Nós devemos escolher como contar uma
história, que pode ter sido contada antes, e devemos julgar e validar nossas
escolhas o tempo todo. Para fazer isso, devemos ser como Roger: leitores
ávidos.
I laughed out loud when Libby
tells Will that her husband is currently writing a book and the man asks “what
for? You already have plenty”. I’ve been taking a course on writing and I know
by experience that we writers are our own first readers and most severe
critics. We must choose how to tell a story, sometimes a story already told
before, and must judge and validate our choices all the time. To do this, we
must be like Roger: avid readers.
Eu disse que nós instantaneamente
detestamos Roger por causa de seus pensamentos retrógrados sobre a filha voltar
a estudar depois de se casar e ter um filho. Mas Libby pensa igual, é o que é
mostrado mais adiante no filme. Ela acredita que uma mulher deve contribuir
para o casamento sendo uma boa esposa e mãe, não estudando e trabalhando. É o
tipo de pensamento que poderia ser esperado de alguém nascido na década de 1910
- como é o caso tanto com Bergman quanto com Quinn -, conflitante com os
valores e pensamentos da nova geração, representados pela filha (Katherine
Crawford, nascida em 1944). Mas há outra razão para Libby não aprovar o plano
da filha: se ela voltar a estudar, Libby vai ter que se dedicar o tempo todo
aos cuidados com o neto, e ela quer ser livre, não uma cuidadora. O buraco é
mais embaixo.
I’ve said that we instantly hate
Roger for his retrograde thoughts about his daughter going back to school after
getting married and having a child. But Libby thinks the same, we learn later
in the film. She thinks a woman must contribute to a marriage by being a good
wife and mother, not studying or working. It’s the kind of thinking that could
be expected from someone born in the 1910s - the case with both Bergman and
Quinn -, clashing with the values and thoughts of the new generation,
represented by the daughter (Katherine Crawford, born in 1944). But there is
another reason for Libby to disapprove of her daughter’s plan: if she starts
studying again, Libby will have to take full-time care of her grandson, and she
wants to be free, not a caretaker. The plot thickens.
Os músicos responsáveis pela
música-título foram Elmer Bernstein - que não era parente de Leonard Bernstein,
apenas amigo - e Don Black. A carreira de Bernstein durou cinco décadas e ele
escreveu quase 200 trilhas para o cinema e a TV. Em 1970 já era ganhador do
Oscar, pelo delicioso e pouco conhecido musical “Positivamente Millie”
(1967). Don Black, que em 1970 já havia escrito a música-tema de três
filmes de 007 e do faroeste “Bravura Indômita” (1969), trabalhou no teatro
musical junto a Andrew Lloyd Weber.
The musicians responsible for the
title song were Elmer Bernstein - not related to Leonard Bernstein, though they
were friends - and Don Black. Bernstein’s career spanned five decades and he
wrote nearly 200 movie and TV soundtracks. By 1970 he was already an Oscar
winner, for the delightful and underrated musical “Thoroughly Modern Millie”
(1967). Don Black, who by 1970 had written theme songs for three 007 movies and
the western “True Grit” (1969), worked closely on musical theatre with Andrew
Lloyd Weber.
Bergman e Quinn já haviam feito
juntos “A Visita”, de 1964, e é só por causa de seus talentos que “Caminhando
Sob a Chuva de Primavera” escapa de ser um melodrama esquecível. O romance é
bom, o perigo, palpável, e o discurso quase-feminista, basicamente jogado para
escanteio. Mas é um filme que merece ser visto, graças ao talento de Anthony
Quinn e, em especial, da incrível Ingrid Bergman.
Bergman and Quinn had already
starred together in 1964’s “The Visit”, and it’s only because of their talents
that “A Walk in the Spring Rain” escapes from being a forgettable melodrama.
The romance is nice, the danger, tangible, and the quasi-feminist discourse,
basically wasted. But it’s a film worth watching, thanks to Anthony Quinn and,
especially, the amazing Ingrid Bergman.
This is my contribution
to the 110 Years of Ingrid Bergman blogathon, hosted by Virginie at The
Wonderful World of Cinema.